Segurança em cirurgia plástica: o que o caso de Goiânia ensina aos pacientes

Entenda como avaliar cirurgião, hospital, tempo operatório e cuidados pré e pós-operatórios para realizar uma cirurgia plástica com mais segurança.

Dr. João Moraes

8/24/20266 min read

Equipe cirúrgica revisando checklist de segurança antes de uma cirurgia plástica
Equipe cirúrgica revisando checklist de segurança antes de uma cirurgia plástica

Segurança em cirurgia plástica: o que o caso de Goiânia ensina aos pacientes

A segurança em cirurgia plástica voltou ao centro das discussões após a morte de uma paciente submetida a vários procedimentos estéticos em Goiânia. O caso, ainda em apuração, chama a atenção para decisões que devem ser tomadas antes mesmo de entrar no centro cirúrgico.

Escolher um profissional qualificado, realizar uma avaliação pré-operatória completa, entender os riscos envolvidos e verificar a estrutura do local onde a cirurgia será realizada são medidas fundamentais.

Nenhuma cirurgia é totalmente isenta de riscos. Entretanto, um planejamento individualizado e o cumprimento de protocolos de segurança ajudam a reduzir a ocorrência de complicações.

Sou cirurgião plástico membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), com atuação no Rio de Janeiro, e considero que uma das principais responsabilidades do médico é ajudar o paciente a tomar decisões conscientes — inclusive quando a alternativa mais segura é adiar, dividir ou não realizar determinado procedimento.

O que aconteceu no caso de Goiânia?

A empresária Andreia Vieira Gaspar, de 51 anos, morreu na madrugada de 12 de agosto, poucas horas depois de passar por procedimentos estéticos realizados sob anestesia geral em um hospital de Goiânia.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, foram combinados seis procedimentos, incluindo cirurgias na face e uma lipoaspiração para obtenção de gordura destinada à enxertia. A permanência no centro cirúrgico teria ultrapassado oito horas.

A família apresentou uma representação ao Ministério Público de Goiás e questiona, entre outros pontos, a avaliação pré-operatória, o atendimento após a cirurgia e a estrutura disponível para acompanhar possíveis complicações.

É importante ressaltar que essas são alegações em investigação. O hospital informou que a paciente recebeu atendimento e que os registros estão documentados no prontuário. O médico responsável lamentou a morte e declarou que prestará os esclarecimentos clínicos aos órgãos competentes, respeitando o sigilo médico.

Portanto, não cabe antecipar conclusões ou atribuir responsabilidade. A causa definitiva e as circunstâncias do óbito deverão ser determinadas por investigação e perícia.

O episódio, contudo, oferece uma oportunidade importante para explicar quais perguntas todo paciente deveria fazer antes de uma cirurgia plástica.

1. Verifique a formação do profissional

A primeira etapa é verificar se o médico possui registro ativo no Conselho Regional de Medicina e Registro de Qualificação de Especialista, conhecido como RQE, na especialidade em que atua.

Para uma cirurgia plástica, o paciente também pode consultar se o profissional integra a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Essa verificação não substitui uma boa consulta, mas ajuda a confirmar que o profissional passou pela formação reconhecida para exercer a especialidade.

Desconfie quando a decisão cirúrgica é tomada apenas por mensagens, fotografias ou chamadas rápidas. Recursos digitais podem auxiliar no primeiro contato, mas não devem substituir uma avaliação médica adequada.

2. A consulta pré-operatória é indispensável

A cirurgia começa muito antes da entrada no hospital.

Na consulta presencial, o médico avalia o estado geral de saúde, histórico de cirurgias, medicamentos, alergias, uso de hormônios, tabagismo, episódios anteriores de trombose e outras condições capazes de modificar o risco do procedimento.

Também é o momento de examinar o paciente, alinhar expectativas e verificar se a cirurgia desejada realmente é indicada.

Exames laboratoriais ou cardiológicos não devem ser vistos apenas como uma formalidade. Quando aparece uma alteração, ela precisa ser interpretada dentro do contexto clínico. Dependendo do resultado, pode ser necessário solicitar exames complementares, consultar outro especialista ou adiar a operação.

Adiar uma cirurgia eletiva não representa fracasso. Em algumas situações, essa é justamente a decisão que demonstra responsabilidade.

3. Onde a cirurgia será realizada?

O local precisa ser compatível com o porte do procedimento, o tipo de anestesia e as condições clínicas do paciente.

Uma estrutura adequada não significa apenas possuir uma sala cirúrgica. É necessário considerar:

  • equipamentos de anestesia e monitorização;

  • equipe de enfermagem treinada;

  • materiais para atendimento de emergências;

  • sala de recuperação pós-anestésica;

  • capacidade de suporte respiratório e reanimação;

  • protocolos de prevenção de infecção;

  • possibilidade de transferência rápida, quando necessária.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica destaca que a sala de recuperação deve permitir a monitorização e o atendimento de intercorrências respiratórias ou cardiovasculares.

Em operações maiores ou em pacientes com fatores de risco, o cirurgião e o anestesiologista também devem avaliar antecipadamente se poderá haver necessidade de terapia intensiva.

O mais importante não é simplesmente perguntar se a cirurgia acontecerá em uma “clínica” ou em um “hospital”, mas compreender quais recursos estão efetivamente disponíveis naquele local.

4. É seguro combinar vários procedimentos?

Combinar procedimentos pode ser adequado em determinados pacientes. Isso pode evitar internações separadas e permitir uma recuperação conjunta.

Mas quantidade e duração não devem ser decididas apenas por conveniência.

Cada procedimento acrescenta tempo anestésico, manipulação de tecidos e novas exigências para o organismo. Cirurgias prolongadas podem envolver maior exposição a fatores como perda de sangue, queda de temperatura corporal, imobilidade e eventos relacionados à anestesia.

Não existe um número de horas que, isoladamente, determine se toda cirurgia é segura ou perigosa. A decisão depende do conjunto:

  • idade e condições de saúde;

  • extensão dos procedimentos;

  • posição do paciente durante a cirurgia;

  • risco de sangramento e trombose;

  • experiência e integração da equipe;

  • estrutura hospitalar;

  • previsão de recuperação pós-operatória.

Quando o plano se torna extenso demais, dividir os procedimentos em etapas pode ser a opção mais prudente. O desejo de realizar tudo de uma vez não deve se sobrepor à segurança.

5. O anestesiologista também participa do planejamento

O anestesiologista não atua apenas durante a cirurgia. Ele avalia as condições clínicas, o tipo de anestesia, os medicamentos utilizados e os riscos relacionados ao procedimento.

Em cirurgias maiores, é importante saber antecipadamente quem será o anestesiologista e onde será realizada a avaliação pré-anestésica.

Durante a operação, esse profissional acompanha oxigenação, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, ventilação e outras funções essenciais.

Cirurgião, anestesiologista, enfermagem e hospital precisam trabalhar como uma única equipe.

6. Segurança continua após o fim da cirurgia

O término do procedimento não significa o fim do período de risco.

A recuperação pós-anestésica e as primeiras horas de internação exigem observação cuidadosa. Alterações respiratórias, sangramento, dor desproporcional, queda de pressão, confusão, redução da oxigenação ou piora rápida precisam ser avaliadas prontamente.

Antes da alta, o paciente e o acompanhante devem receber orientações claras sobre:

  • medicamentos e horários;

  • cuidados com curativos;

  • movimentação e prevenção de trombose;

  • alimentação e hidratação;

  • sinais de alerta;

  • telefone para emergências;

  • retorno médico programado.

Também deve existir um plano definido para intercorrências fora do horário habitual de atendimento.

7. O checklist de cirurgia segura

O Ministério da Saúde recomenda a utilização de uma lista de verificação em diferentes momentos: antes da anestesia, antes da incisão e antes de o paciente deixar a sala cirúrgica.

Esse protocolo ajuda a confirmar informações como identidade do paciente, procedimento, local da operação, alergias, disponibilidade de equipamentos e contagem de materiais.

O checklist parece simples, mas representa uma barreira importante contra falhas de comunicação e erros evitáveis.

O que perguntar antes de marcar uma cirurgia plástica?

Leve estas perguntas para a consulta:

  1. Qual é a especialidade e o RQE do médico?

  2. Onde a cirurgia será realizada?

  3. O local está autorizado a realizar esse porte de procedimento?

  4. Quem será o anestesiologista?

  5. Quais riscos são específicos para o meu caso?

  6. É realmente seguro combinar todos os procedimentos?

  7. Há possibilidade de dividir a cirurgia em etapas?

  8. Como será a recuperação pós-anestésica?

  9. Existe UTI ou protocolo de transferência, se necessário?

  10. Quem prestará atendimento em caso de complicação?

  11. Quais sinais devem levar à procura imediata de um hospital?

Um profissional responsável não deve se incomodar com essas perguntas. Ao contrário: deve respondê-las com clareza.

Segurança não é detalhe — é parte do resultado

Em cirurgia plástica, um bom resultado não é apenas estético. Ele precisa preservar a saúde e o bem-estar do paciente.

Tecnologia, técnica cirúrgica e experiência são importantes, mas não substituem avaliação clínica, estrutura adequada, planejamento realista e acompanhamento pós-operatório.

Casos graves divulgados pela imprensa despertam preocupação, mas também podem ajudar pacientes a compreender que a escolha de uma cirurgia não deve ser baseada somente em preço, exposição nas redes sociais ou promessa de transformação.

A decisão deve ser compartilhada, individualizada e construída com transparência.

Se você está planejando uma cirurgia plástica, procure um especialista qualificado e converse abertamente sobre riscos, limites e alternativas. Segurança deve ser o primeiro critério — antes, durante e depois da operação.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação médica individualizada. O caso mencionado permanece em apuração, sem conclusão definitiva sobre eventuais responsabilidades.

Fontes consultadas

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